Estreitamento de relações entre Vale de Santarém e Cadima
A HISTÓRICA MIGRAÇÃO DOS “CARAMELOS”, VINDOS DE CADIMA (CANTANHEDE) E ENVOLVENTE, QUE HAVERIAM DE FIXAR-SE NO VALE DE SANTARÉM, E O ESTREITAMENTO DE RELAÇÕES QUE ESTÁ A INICIAR-SE ENTRE AS POPULAÇÕES DAS DUAS VILAS
A nossa Associação assumiu desde a primeira hora dar relevo às migrações internas, dado a história da comunidade registar períodos em que grupos de homens, de diversas origens do nosso país, vinham para a região, contratados por proprietários de casas agrícolas, sobretudo para trabalharem no campo fronteiro ao Vale, ficando alojados na aldeia, durante alguns meses.
Este movimento migratório terá começado a atingir maior expressão no início no
século XIX, vindo a manter-se no século XX, e extinguindo-se já nos anos setenta.
Nos primeiros tempos, estes trabalhadores rurais, vindos sobretudo da zona de
Cantanhede, eram ocupados principalmente nos trabalhos de cavar no campo, nas
muitas vinhas que então havia, após o que regressavam às suas terras, voltando ao
Vale no ano seguinte, se novamente contratados.
Faz parte da história deste processo que, face à vinda de trabalhadores de outra zona
do país, os do Vale se viram perante concorrentes com acesso ao seu trabalho no
campo, ainda por cima por uma jorna de valor inferior. Os conflitos haveriam de dar-
se, vindo até a mobilizar a intervenção conciliadora do pároco da igreja local, que
acabaria por resultar.
Entretanto, aos poucos alguns foram ficando na aldeia, quer trazendo a sua família,
quer constituindo família no Vale.
Sobre este movimento migratório dos “caramelos”, designação por que ficaram
conhecidos os oriundos daquela região, haveria de distinguir Dragomir Knapič (1925-
2006) reconhecido geógrafo, professor, de origem romena, que se fixou em Portugal,
entre “caramelos de ir e vir” e “caramelos de estar”, pois os primeiros regressavam à
terra, no fim do período de trabalho no Ribatejo, os segundos iam ficando mais tempo, até se fixarem.
Regista também a história desta migração que foram em maior quantidade os que
vinham de Cadima, freguesia daquele concelho da região gandaresa, do distrito de
Coimbra. Uma vez que ficavam a viver sobretudo em instalações dos agrários e outras, e em condições precárias, situadas na parte de baixo da aldeia, mais próxima do acesso ao campo, foi a população do Vale que se habituou a designar essa zona por
Cadima, o que ainda hoje se mantém, nomeadamente reflectindo-se na toponímia da
vila, onde consta a Rua de Cadima e a Rua Rio de Cadima, ambas nessa parte da vila.
Assumindo importância maior, no contexto dos migrantes internos que o Vale de
Santarém acolheu, não só pelo que trouxe de mão-de-obra para a zona, mas também
pelo relevante impacto sociocultural que daí resultou, a Associação está agora a
trabalhar em projecto de estreitamento de relações com a vila de Cadima.
Este projecto, que tem o acompanhamento da Junta de Freguesia do Vale de
Santarém, conta igualmente com o interesse e empenho da Junta de Freguesia de
Cadima, tendo havido contactos que, sobretudo a partir de 2024, apontaram para a
realização de Delegações das duas comunidades. Neste sentido, a Associação terá a
sua delegação em Cadima no próximo dia 14 de Junho e a delegação de Cadima será
recebida no Vale no dia 21 de Junho, segundo programas que ambas as partes têm
vindo a preparar.
Dado que em 21 de Junho também ocorre o 30º Aniversário da Elevação do Vale de
Santarém a Vila (em 1995), o acolhimento à Delegação de Cadima integra-se no
programa das comemorações, envolvendo:
- 10H30 – Recepção da delegação de Cadima na Junta de Freguesia do Vale – Av.
Poeta João d'Aldeia, Nº. 4. - 11H30 – Deslocação, com visita guiada, na freguesia, à zona urbana de Cadima –
Rua de Cadima e Rua Rio de Cadima. Breve referência histórica à migração
oriunda de Cadima e localidades próximas. - 13H00 – Almoço de confraternização na Estação Zootécnica Nacional – Quinta
da Fonte Boa – para as duas delegações, para os representantes autárquicos e
membros das diversas associações e outras entidades do tecido social do Vale,
como para valsantarenos descendentes de naturais de Cadima e zonas
envolventes, além de outros que desejem participar. - 16H00 – Lançamento do livro “Personalidades históricas do Vale de Santarém” de Arménio Francisca Gomes, descendente de naturais da zona de Cadima-Cantanhede. Esta sessão decorrerá no Salão Paroquial do Vale, junto à Igreja. Tempo previsto: 2 horas.
De outras zonas do país, recebeu o Vale de Santarém grupos de trabalhadores e
famílias, que procuravam na região trabalho regular e almejando vida melhor. Além
dos caramelos, outros migrantes chegaram à nossa terra: os gaibéus, os avieiros, os
alentejanos.
Cada uma com as suas particularidades, estas migrações deixaram também marcas
significativas na nossa comunidade, incluindo a fixação e a constituição de famílias, a
partir de casamentos com naturais do Vale. De destacar, ainda, que a passagem da
linha férrea do Norte pelo Vale também contribuiu para que trabalhadores da CP
fixassem residência na nossa terra, o mesmo acontecendo com os que, vindo de longe, vieram trabalhar para a Estação Zootécnica Nacional, na Quinta da Fonte Boa, ou para a fábrica dos briquetes, junto à linha férrea Norte-Sul.
Terra que acolheu migrantes internos ao longo dos últimos séculos, aos poucos
integrando os que queriam permanecer, muitos dos quais viriam a ter papel relevante
na dinâmica da sociedade valsantarena a diversos níveis, a vila vai agora começar a
revisitar essa particularidade da sua história, uma parte importante da sua identidade
e memória colectiva, com esta iniciativa da associação, e o envolvimento do
movimento associativo do Vale.
De fora deste objectivo não ficarão também as migrações em sentido contrário,
mesmo que temporárias, de grupos de homens que saíam do Vale para trabalhar
noutras regiões: em vinhas de Patalim, por exemplo, na freguesia de São Sebastião da
Giesteira, concelho de Évora.
Já iniciadas pesquisas e contactos, também sobre estes temas, a Associação vai
desenvolver trabalho e, a seu tempo, apresentar resultados.
Finalmente, e por ser situação dos nossos dias, também sobre a imigração que no Vale de Santarém se tem instalado, vai a Associação desenvolver o trabalho que, no seu âmbito, entende competir-lhe.
Manuel Sá
Presidente da ACVSIM
9 de Junho 2025.
